1 de jan. de 2011

1 de janeiro de 2011

É ano novo, dia primeiro...
À minha frente, um papel em branco.
Tenho mão, caneta, ideias: sou livre.

Assusta.

O infinito se apresenta
Vestido de calendário;
Faz por bem. Do contrário,
Ia frouxa a finitude...

O infortúnio é ser poeta:
Estes sonhos, esta alma ao vento...
E estes olhos sedentos!
Não cabem em frascos de trezentos e sessenta e cinco dias

18 de out. de 2010

Resumo

No princípio era a chama,
E seu show de luzes!
Plantando cruzes
Num destino frio.

Depois,
sem ar nem peito para queimar,
poupou-se às cinzas.

E então,
Blasfemando a beleza a respirar na Morte ainda,
Juntaram-se alguns
E fizeram questão de cagar sobre elas.

13 de set. de 2010

Frente e Verso (Caminho)

É macio o chão que piso
e mais leves são meus passos.
Nos meus braços, tua ausência
Pesa leve, aconchegada.
Vou seguindo.
                     Para onde?
Saberemos, saberemos.

Vem no vento uma esperança!

É macio o chão que piso;
Sob a aurora infatigável,
Levo as marcas que me deste,
Peito forte como sempre.
Vou em frente!
                      Para onde?
Nunca soube. Saberemos!

É macio o chão que piso
Por queimarem tanto as chamas!
Temperando teus encantos
Reluzindo em cada canto...!

                                                  a dor...
                                      e espalha
                         Vem o vento

É macio o chão que piso:

O chão que piso são as nossas cinzas.

13 de ago. de 2010

O Poeta vai ao Bar

Enquanto bebo, aqui,
Tal bebedor qualquer
Há outro em mim que bebe
Por trás da sebe
A figura de uma mulher...
Que em cada riso que me serve,
Em cada brilho que me traz,
Embriaga mais
Uma alma que ferve
Sem copo sequer.

Do que se fala

Essa gente que fala
que não mereces meu amor;
Essa gente que fala
que eu não tenho orgulho algum;
Essa gente que me explica
que é preciso que eu te pise,
que é preciso que me afaste,
que é preciso que eu procure recompor-me...

Provavelmente,
estão todos certos.

Mas,
certamente,
nenhum deles viu teu rosto como eu vejo agora.

10 de ago. de 2010

Além do Amor

canção de Vinícius de Moraes

Se tu queres que eu não chore mais,
Diz ao tempo que não passe mais.
Chora o tempo o mesmo pranto meu
- ele e eu -
tanto!
Que só para não te entristecer
Que fazer?
Canto;
Canto para que te lembres
quando eu me for...

Deixa-me chorar assim
porque eu te amo.

Dói a vida tanto em mim
porque eu te amo.

Beija até o fim
as minhas lágrimas de dor
porque eu te amo
além do amor.

6 de ago. de 2010

Barco 6820

Sozinho em alto mar...
Altíssimo mar branco!
É preciso leveza.

Há ondas dóceis e discretas
Pouco hábeis em questão de entretenimento
E um tempo arbitrário
que mal se mostra...
Brincar é preciso;
Distrair-se...

Ao lado, sereias
- uma linda, outra feia -
sorriem e entregam
suquinhos, torradas e 'pasta'
Brincar é preciso;
Inventar;
Alhear-se!

Abençoados os que têm talento
e conseguem dormir.
Eu não tenho:
eu brinco, invento
eu tento
distrair-me...

Paciência!
é preciso esperar.
esperar;
esperar...

Mas que saco esta espera!
que versos sem sorte!
que chato é voar!

Soneto Póstumo

Mário Quintana

- Boa tarde... - Boa tarde! - E a doce amiga
E eu, de novo, lado a lado vamos!
Mas há um não sei quê, que nos intriga:
Parece que um ao outro procuramos...

E, por piedade ou gratidão, tentamos
Representar de novo a história antiga.
Mas vem-me a idéia... e nem sei como a diga...
Que fomos outros que nos encontramos!

Não há remédio: é separar-nos, pois.
E as nosssas mãos amigas se estenderam:
- Até breve! - Até breve! - E, com espanto

Ficamos a pensar nos outros dois.
Aqueles que há tanto já morreram...
E que, um dia, se quiseram tanto!

O Poeta

Vinícius de Moraes

Olhos que recolhem
Só tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

Mãos que só despejam
Silêncios e dúvidas
Para que outras sejam
Das suas, viúvas.

Lábios que desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.

7 de jul. de 2010

Sorriso

Deitar-se de todo
Na sombra suave
Da árvore leve...
...................tão leve!

Deitar-se na terra
Como fosse o colo
Da gentil namorada
De olhar suspenso, brilhando de amor!

Aceitar a carícia
Natural e pura
Das folhas que caem,
Do céu exibido,
Da vida vaidosa que canta tranquila...

Que mais uma alma
..........precisa sonhar?

6 de jul. de 2010

Pequeno Poema Didático

(Mário Quintana)

O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga a mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.

Todos os poemas são o mesmo poema,
Todo porre é o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas!

2 de jul. de 2010

Pouco Sei

Pouco sei do que é possível
Nos possíveis que há em ti.

Não conheço a correnteza
Nem quão fundas são águas
Quanto pode haver de sonho,
Quanto pode haver de mágoa...

Nada sei dos teus carinhos
- e os espinhos, mal suspeito!
E estes versos que te moldo,
Pouco sei dos seus efeitos.

Sei apenas dos teus olhos;
Do teu beijo;
Do teu riso e do teu ar distinto.

Mas me encanto na maneira que isso traz
Um desejo de saber um pouco mais...




25 de jun. de 2010

Prece


Queria que meu pranto lavasse o mundo,
Mas não lava nem minhas mãos.

11 de jun. de 2010

Longe


A saudade já se expande
E me traz para essas linhas...
Sendo ela assim tão grande
Poderia ser só minha?

30 de mai. de 2010

Poema Enjoadinho*

*em paródia ao de Vinícius de Moraes

Mulher...Mulher?
Melhor não tê-las!
Mas se não as temos
Como sabê-lo?
Se não as temos
Que de consulta
Quanto barulho
Como as queremos!
Cotidiano
Diz que é normal...
Um sonho chega
Cobre a razão
Se escolhe cores
Vira um caminho
Se enfeita em tudo
Depois, que bom
Que bom, paixão
Pudor miúdo!
Resultado: fogo.
E então começa
A aporrinhação:
Amor não quer
Amor não pode
Mulher maluca
Não sabe amar.
Mulher? Mulher
Melhor não tê-las
Noites de insônia
Dor prematura
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-me!
Mulher é o demo
Melhor não tê-las
Mas se não as temos
Como sabê-las?
Como saber
Que macieza
Nos seus carinhos
Que cheiro morno
No seu descanso
Que gosto rubro
Na sua boca!
Rasgam a calma
Molham os dias
Ateiam vento
Gesto qualquer
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que é uma mulher!